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16 de janeiro de 2020, 11h32

Cacique Raoni manda recado para Bolsonaro: “Esse encontro não é para planejar uma guerra”

Nesta quarta-feira (15), a Funai informou que o encontro dos povos indígenas promovido pelo Cacique Raoni é “um evento totalmente privado e em nada está alinhado à política desta fundação”

Cacique Raoni (Foto: Arquivo/EBC)

Em entrevista coletiva nesta quarta-feira (15), durante o encontro dos Povos Mebengokrê, na Terra Indígena Capoto Jarina, às margens do rio Xingu, no Mato Grosso, o cacique Raoni disse que Jair Bolsonaro provoca a divisão dos povos indígenas para implementar sua política de exploração comercial das terras demarcadas.

“Vou voltar a falar de novo, na frente de vocês, que eu não aceito que façam barragem, não aceito mineração na nossa terra, não aceito que destruam nossa floresta. Como estou falando aqui, quero falar para Bolsonaro: Bolsonaro, veja se faça coisas bonitas, veja se faça as coisas direito. Ajude seu povo. Ajude o povo indígena. Você vem fazendo as coisas querendo destruir. Você mesmo não está respeitando o seu povo. Você não tá respeitando meu povo indígena. Vê se me escuta. Vê se minha voz chega a você, para você respeitar seu povo e povo indígena. Mas você fazendo coisa ruim, eu não gosto”, declarou o cacique, antes de responder as perguntas.

Segundo Raoni, o encontro tem a intenção de defender os povos indígenas e não de atacar Bolsonaro. “Esse encontro não é para planejar uma guerra, um conflito. Estamos aqui para defender nosso povo, nossa causa, nossa terra. Eu quero pedir mais uma vez que o homem branco nos deixe viver em paz, sem conflito, sem problema. Eu nunca faria um encontro para atacar alguém. Estamos nos reunidos aqui para nos defender”.

Nesta quarta-feira (15), o perfil oficial da Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que o evento organizado pelo Cacique Raoni é “um evento totalmente privado e em nada está alinhado à política desta fundação”.

O Encontro dos Povos Mebengokrê vai até esta sexta-feira (17), reunindo cerca de 450 lideranças indígenas.

Leia a entrevista na íntegra

Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, está aqui. Vocês pretendem reviver a aliança dos povos da floresta?
Sim. Estamos conversando sobre isso aqui.

Como esse discurso de união dos povos se reflete na realidade?
Tenho falado aqui para meu povo que nós temos que nos unir para nos defendermos uns aos outros. Estamos reunidos aqui e podemos ajudar os Guarani, por exemplo, que estão sendo atacados.

Com relação à terra onde seu pai está enterrado, que ainda não está demarcada, acha que vai ser?
Como estamos reunidos, vamos falar da demarcação de capoto inhore, que é importante pra nós, que é nosso território, não é dos outros. Vamos falar e pedir demarcação. E vamos também lutar para demarcar outras terras.

Bolsonaro muitas vezes fala em nome do povo indígena, como se soubesse o que os indígenas querem. Mas vocês discordam. Como combater essa divisão?
Ele tem falado muita coisa que eu não concordo e está fazendo divisão entre nós. Isso que ele está falando e fazendo eu não aceito. E vou falar para vocês que estamos reunidos aqui para fazer um documento, e queremos que vocês espalhem esse documento para ver se ele deixa a gente viver em paz.

Como o senhor vê o movimento dos jovens?
Tenho falado para os jovens se unirem, todos os jovens, para continuar a nossa tradição. Os jovens do nosso povo têm que continuar nossa luta para viver em paz com suas futuras mulheres e seus filhos. Se unir para continuar a luta pela sobrevivência.

Por que a terra é tão importante para vocês?
Eu quero que meu povo viva na terra porque é na terra que nós plantamos a comida, a floresta tem animais para caçar e comer. Por isso queremos a floresta em paz.

Foi noticiado um projeto de lei do Bolsonaro que prevê o garimpo em terras indígenas, dizendo que o povo pode ser consultado, mas não pode proibir. O que acha disso?
Eu não aceito que ele faça isso. Eu não aceito mineração na terra indígena. Eu não aceito madeireira na terra indígena.

O que você pensa do empresário que quer fazer esse tipo de exploração?
Se vierem com dinheiro para minerar minha terra, eu não vou aceitar. Se vierem com dinheiro para explorar madeira, eu não vou aceitar.

Como vocês pretendem responder a esse projeto?
Megaron: Ele (Bolsonaro) ainda vai mandar esse projeto para o Congresso Nacional. Não é ele quem aprova a lei.

Mas como enfrentar isso?
Nós vamos discutir isso e vamos ao Congresso tentar impedir.

O senhor disse hoje mais cedo que quer apoio da Europa. O que espera dos líderes europeus?
Líderes de outros países me dizem que não aceitam o jeito que o Bolsonaro trata o país e apoiam a causa indígena.

Você enxerga um sucessor?
Alguns jovens e lideranças estão me falando que vão continuar a minha luta. Vários indígenas já me falaram isso.

Poderia ser uma mulher?
Um homem e uma mulher. Os dois. Tem muitas mulheres na liderança hoje.

Como você vê isso?
Várias mulheres já me falaram que vão seguir a luta pela preservação e a defesa dos povos. Isso é bom.

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